sexta-feira, 23 de março de 2012

O disco de 1988


Com a facilidade do cd, acabamos perdendo certos costumes. Hoje em dia, com a facilidade de se baixar um disco pela internet, pior ainda. Muita gente deixa o disco na própria máquina, o que este que vos fala particularmente não é lá muito adepto. Prefiro (fritar) os cds em wave mesmo. Bom, com toda essa parafernália dos (disquinhos mágicos) como dizia uma certa revista, tive uma sensação diferente ao pegar o vinilzão de 88. Ao abrir a capa para colher informações para vocês me fez voltar no tempo.

LADO A
1 - Se Diverte e Já não Pensa em Mim
(Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Arranjo assinado por Charles Calello, a música que abre o disco é totalmente dentro dos padrões RC. A qualidade de som está diferente nesse disco. Roberto gravou a disco com gringos. O som está mais encorpado, os graves estão mais audíveis. Seria esse (para mim) o último disco em que o Roberto usa baterista de verdade. A partir do disco de 89 nota-se a tecnologia com os processadores. A primeira vez que ouvi a canção, salvo engano, foi numa fita pirata. A letra é linda e comenta da vida a dois e particularmente da outra pessoa que não tem tempo para nada quase. Na parte, (usa o fax e o telex), em tempos de hoje seu sobrinho pode perguntar o que é fax e telex. Em tempos de hoje como seria? (Usa o skype e o orkut, mais o MSN, facebook)... No especial de fim de ano a gloriosa Luiza Brunet encheu nossas telas com a sua beleza vivendo o papel de uma mulher de negócios. O clipe mostra Robertão gravando com sua habitual roupa, coletão jeans claro, camiseta e calça jeans. Sobre a roupa, Roberto disse em entrevista a revista Caras em 94: Gosto muito de jeans, azul e branco. Pior é quando dizem que eu estou sempre com a mesma roupa (risos). A letra também acompanha a mudança da sociedade de uma certa forma. No disco de 1973 em Rotina, a mulher era retratada em casa, enquanto o marido saía para trabalhar, os dois pensavam um no outro durante o dia inteiro, etc. Na letra desta canção de 1988 a mulher saía para trabalhar, cheia dos afazeres, ou seja, as canções da dupla Roberto e Erasmo sempre acompanharam as mutações da sociedade.

2 - Todo Mundo é Alguém
(Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Arranjo de base: Robbie Buchanan. Arranjo de Cordas: Eduardo Lages
A música para o povão. A letra critica de forma sutil a cambada de magnatas que vive no mundo. Diz que não importa a cor e que tudo o que ele (homem) quer é o respeito por sua luta. Letra atualíssima por sinal. De uma certa forma, fala para que a gente (trabalhadores) não encolhamos nossos ombros. Como diz a letra (dentro de um castelo ou de um barraco, ele é alguém, com o que tem). O tipo de letra que te prende e te faz refletir. Robertão e Erasmão são ótimos nisso. Bons tempos em que tínhamos letras cm conteúdo. Na execução da música no especial de 88, alternam-se imagens entre ao vivo e imagens do povão indo ao trabalho. No final da música há uma bateria de escola de samba com um coral maravilhoso. A guitarra do começo tem um chorus gostoso de se ouvir. Dean Parks destrói no solo, diga-se de passagem.

3 - Se Você Disser Que Não Me Ama
(Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Arranjo Charles Calello
Um bolero que reforça a diversidade de ritmos da dupla de compositores. A letra é daquele tipo de situação, (Ah, diz que não me ama, vai, quero ver) rs. No clipe veiculado no especial, Roberto está como crooner (no tempo da boate Plaza na deveria ter o mesmo glamour), a banda atrás um ou outro músico com a gravata torta, mas não vem ao caso. Roberto com aquele microfone antigo. Isabella Garcia maravilhosa, dança ao som o Robertão. Nos braços de outro. Os dois ficam se comendo com os olhos, até que no final da música, Roberto após pegar o cachê, encontra com Isabella e os dois dançam. Isabella recita a letra da canção.

4 - Como As Ondas Do Mar
Marcos Valle/ Carlos Colla – Arranjo: Charles Calello
Maravilhosa música que acrescenta ao cardápio de estilos que é esse disco de 88. A letra fala de uma situação em que compara-se as ondas do mar, o (tudo vem, tudo vai). Diz a letra, (com você aprendi que o que dá pra sorrir, também dá pra chorar). Fala do amor verdadeiro, aquele que ficou lá para trás. Saudosismo é marca registrada também na carreira de Roberto. Já chorei muito ouvindo isso. No especial da Globo, Roberto é um papai Noel de shopping e vê a amada de mãos dadas com a filha. A amada é bem estilo anos 80. Mas curioso é que ela não se toca nem uma vez que o papai Noel é o Roberto. Ao final, Roberto, puto da vida tira o disfarce de Papai Noel e manda tudo para o inferno. 

5 – Se o Amor Se Vai
(Roberto Livi/Bebu Silvetti/Roberto Carlos/ Carlos Colla)
Arranjo de base: Bebu Silvetti / Arranjo de cordas: Eduardo Lages
Ganhadora do Grammy, curiosamente ela foi apresentada no ano seguinte em especial, com Roberto cantando ao vivo no especial do disco Amazônia. A letra comenta que se fosse a inexistência do amor (sentimento), um monte de coisas ia para o ralo. O bilhete, flores, sonhos, fantasias e reforça que (pobres namorados, choram separados por razões banais).



6 – Papo de Esquina
(Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Participação muito especial: Erasmo Carlos.
Arranjos: Charles Calello
A música é um country, bem mais fiel do que alguns countries que andaram aparecendo recentemente. A letra é uma conversa de dois amigos que falam de suas respectivas descobertas mulherísticas. Ou seja, dois amigos falando sobre suas respectivas presas. Agora, o que eu torci o nariz desde a primeira vez que ouvi foi o (toda razão dessa felicidade é uma gata chocante que eu conheci na cidade). Essa gíria não desce até hoje, rs. Nessa época, na Globo ainda tinha o programa Globo de Ouro. Roberto e Erasmo eram presença garantida com essa música. Quem apresentava o programa e os convidados era Miryam Rios.

7 – Eu sem Você
(Mauro Motta/Carlos Colla)
Arranjo: Charles Calello
Uma composição do produtor do disco e do hit maker Carlos Colla. Bela letra falando coisas do tipo, (Ah, é? Fica sem mim que tu vai ver o que é bom pra tosse!). Essa música não entrou no especial da Globo. Mas é a música para se ouvir ao lado da pessoa amada, a meia luz e com um bom vinho.

8 – O Que É Que Eu Faço?
(Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Arranjo de Base: Charles Calello. Arranjo de cordas: Eduardo Lages
Samba muito bem feito. Mais uma vez ressalto aqui a diversidade de estilos em um mesmo disco. Essa foi a primeira música do disco que eu ouvi no rádio. Ao final o locutor da Rádio América dizia: Parabéns Roberto, são músicas assim que provam que um rei jamais perde a majestade. A letra fala de suposições: (se você de repente me achar, no seu caminho; na sua porta; na sua cama, etc).

9 – Toda Vã Filosofia
(Guilherme Arantes)
Arranjo: Charles Calello
O rei grava uma música de Guilherme Arantes, excelente compositor. Não sei porque, mas adoro essa canção que ouvia sempre antes de ir para a escola a tarde. Fala do amor como o centro de tudo. Principalmente no trecho (Mas hoje eu sei, que só através do amor o homem pode se encontrar com a perfeição dos sábios).

10 – Volver
(Carlos Gardel/ Alfredo Lepera)
Arranjo: Bebu Silvetti
Tango fiel as raízes. No clipe do especial, Roberto aparece cantando com um efeito de fumaça atrás dele, vestido com um terno, detalhe para as mangas arregaçadas. Excelente canção. Outra para se ouvir com vinho do lado.

Considerações Finais
O disco é um trabalho ímpar, totalmente dentro dos padrões RC de qualidade. O time de músicos está perfeito, entrosado e a banda está um relógio. Roberto dá um show de interpretação em todas as letras, gravar com sentimento é algo que ele entende bem.
O álbum foi gravado nos estúdios Cherokee, Record Plant, A&M Records, Sigma Sound e Sigla (RJ).


6 comentários:

  1. Esse foi o primeiro disco do Roberto que tive simultâneo ao lançamento. Gosto para caramba dele, começando pela capa (com a expressão séria do Roberto) assim como toda a parte gráfica.

    Lado A

    1. Se Diverte e Já Não Pensa em Mim - Muito boa a sua comparação dela com a música "Rotina". No livro "Só As Mães São Felizes" tem uns trechos de entrevistas do Cazuza e numa passagem ele que era fã do Roberto dizia estar curtindo muito essa música na época que sempre se pegava cantarolando-a.

    2. Todo Mundo É Alguém - Essa música tem ecos que vêm da época que Roberto era mais diretamente influenciado pela soul music. Boa letra, ótima levada, o crescendo e o coro no final são empolgantes.

    3. Se Você Disser Que Não me Ama - Essa é uma das minhas canções prediletas do Roberto. Falando no clipe, a Isabella Garcia era meio que uma paixão platônica minha na época, de acordo com os rumores que rolaram não fui só eu que me encantei com a beleza da moça, hehe. Solo perfeiro de violão do Señor Ramon Stagnaro. Podia voltar ao repertório dos shows um dia.

    4. Como As Ondas do Mar - Letra do Carlos Colla e música do Marcos Valle e que cita "Pra Você" de Sílvio César também gravada pelo Rei em 1970. A música que mais gosto da dupla gravada pelo Roberto é "Não Me Deixe" de 1991, mas essa também me agrada muito.

    5. Se O Amor Se Vai - Puxa, essa música tocou muito na época e como você disse rendeu um Grammy ao Roberto como melhor cantor latino. Disco inspirado.

    continua...

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  2. ...continuando:

    Lado B

    1. Papo De Esquina - "A música é um country, bem mais fiel do que alguns countries que andaram aparecendo recentemente". Para melhorar esse disco ainda tem a presença do Erasmo num dueto. Engraçado, eles gravaram muito pouco juntos considerando que ambos são cantores e compositores que sempre trabalharam em dupla, temos o "Sentado À Beira do Caminho" do Erasmo Convida em 1980 e "Papo de Esquina" em 1988, fora isso só a homenagem ao Elvis que saiu no Duetos extraído do Especial de 1977. Também aparecem juntos na gravação do compacto "Chega de Mágoa" de 1985 criação coletiva com vários artistas nacionais em evidência na época. Erasmo disse numa entrevista que ele fez uns vocais e improvisos que foram cortados na mixagem, na minha opinião isso deve ter rolado para manter o padrão do Roberto, o que acho bem normal e ao mesmo tempo penso que por diferenças assim se torna tão difícil que um dia eles façam um disco juntos como sempre esperei.

    2. Eu Sem Você - Esse é o típico pop bem feito, Roberto foi muito feliz nessa linha durante os anos 80.

    3. O Que É Que Eu Faço - Falando em pop, os sambas que o Roberto gravou, fruto de suas parcerias com o Erasmo sempre tiveram um diálogo com a sonoridade pop vide as músicas "Cama e Mesa", "Nega" e "Só Você Não Sabe" e juntando com o que você disse da diversidade de estilos musicais gravados por Roberto no disco e também em sua carreira como um todo, ele sempre soube incorporar seu estilo próprio a qualquer que seja o gênero que cante. E por essas e outras que eu o exalto como o maior intérprete que já existiu.

    4. Toda Vã Filosofia - Essa é uma das minhas prediletas no disco e assim como em "O Que É Que Eu Faço" ele canta muito nela, a melodia também ajuda, Guilherme Arantes é o tipo do cara que eu acho pouco valorizado diante da qualidade de seu trabalho.

    5. Volver - Tango, Gardel e Roberto, isso já tinha dado certo antes em "El Dia Que Me Quieras". Lindíssima canção e interpretação do Rei, entra para a minha seleção de melhores momentos de sua carreira. Arranjo belíssimo com destaque para o piano na introdução e o solo de bandoneon. Deu vontade de ouvir agora! (e pare de falar de vinho porque me dá vontade de beber mesmo! hauhauha).

    Considerações finais: Um disco criativo e inspirado tanto pelas canções quanto pelos arranjos, Calello, Silvetti, Buchanan e Lages, todos trabalharam bem nesse disco com músicos exepcionais como já era de praxe nos discos do Rei e uma qualidade sonora que vem brindar tudo isso. Roberto canta o amor mais uma vez em suas mais variadas formas, mas se abre para temas mais universais (se é que existe tema mais universal que o amor, né?) em "Todo Mundo É Alguém" e "Toda Vã Filosofia", recebe seu amigo de fé Erasmo Carlos para um dueto, dá um show de interpretação em várias canções e ainda encerra o álbum com uma releitura simplesmente perfeita de um clássico da música mundial. E cara ainda conseguia fazer tudo isso mantendo uma linguagem simples (apesar da complexidade que existe por trás de tudo isso) da música pop sob medida para dialogar com todos os públicos, um dos "segredos" que fizeram do Roberto o que ele é hoje. Resumindo em duas palavras: Grande disco!

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  3. Na realidade esse disco como eu já devo ter dito aqui, eu ouvi primeiramente a "O que é que eu faço" no rádio. Depois esse disco chegou a mim em fita pirata, mas era engraçado porque entre uma música e outra havia uma mixagem, os segundos finais da música que estava acabando juntava com os primeiros acordes da música seguinte, criando um efeito muitas vezes semi tonado. Lembro que não demorou muito para comprar o LP. Essas fitas vinham com a capa num papel colorido com o nome das músicas, rodaram muito aqui por São Paulo. Se eu encontrar alguma na casa de alguém depois eu te passo uma foto. Quando não as capas eram xerocadas. O compacto Chega de mágoa, estou em negociações para obtê-lo, mas tá dificil hehe. Mas consigo uma foto da capa.
    Esse disco marca também a época que eu comecei a tocar violão, foi por volta de 88, 89 se não me engano eu comecei a tocar na missa, e lá estou até hoje.
    Obrigado por passar aqui mais uma vez. Como já disse, quando eu faço uma postagem, já imagino os teus comentários, mas alguns amigos tbm estão sumidos. Cadê o Toinho, o Adriano Ferrari, o Pedro...? O Daniel tá sempre por aqui também. Abraços mano.

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  4. Eu lembro dessa época que começou a rolar as tais fitas piratas e por coincidência também foi a época que eu estava começando a tocar violão, lembro inclusive de comprar uma revistinha daquelas de cifras chamada Coro de Cordas cuja a capa era exatamente a foto desse disco do Roberto e tinha Se Diverte Já Não Pensa Em Mim. O "Chega de Mágoa" eu tenho aqui, apareceu aqui em casa um dia no meio de uns discos que meu pai ganhou.

    Bicho, reouvi esse disco hoje pela manhã. Discaço mesmo! Que ficha técnica: Abraham Laboriel, Jeff Porcaro, Dean Parks,Paul Jackson Jr., Paulinho da Costa, as Waters Sisters, Oscar Castro Neves, Ramon Stagnaro...é o tipo de disco que ainda consegue melhorar com o tempo, assim como os bons vinhos (acredite ouvi o disco e ainda tomei um vinho, aliás, o disco estava bem melhor que o vinho, hauahuha)

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  5. Amigos,

    Gosto muito desse disco e o considero um dos melhores em termos de sonoridade, de sua majestade! Baratta, a canção Se o amor se vai não foi apresentada no especial de 89 e sim, no de 88, em espanhol, naquele trecho em que ele grava em Atlantic City! No Globo de ouro, ela foi cantada várias vezes e também Se diverte e já não pensa em mim, Se você disser que não me ama (concordo plenamente que poderia voltar ao set list dos shows atuais) e Papo de esquina, que foi apresentada uma única vez com a dupla!
    Gosto de todas as canções o que faz deste um ótimo disco pra se ouvir do começo ao fim. Toda vã filosofia, traz uma letra mágica, religiosa e de sabedoria impressionante! Se você disser que não me ama é um perfeito bolero que foi feito em 87, mas a gravação só foi concluída em 88! Como as ondas do mar tem uma perfeita letra e arranjo envolvente, uma valsinha gostosa!
    Enfim, gosto desse trabalho também e que saudade desses bons tempos de grandes discos! Observe que no meio daquele ano já tinha sido lançado um trabalho ao vivo, mas que não comprometia em nada o trabalho anual!

    Blog Música do Brasil
    www.everaldofarias.blogspot.com

    Um forte abraço a todos!

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  6. Grande Everaldo. Aliás grande trecho aquele de Atlantic City, o especial de 88 eu adoro. Ah, aliás, o disco ao vivo de 88 também está aqui comentado no blog. Abraço mano.

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