segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O disco de 1972


O texto a seguir é do meu amigo do Orkut da comunidade MC & JG Rubens Stone. “Na semana que antecedeu o Natal de 1972, as lojas de discos do Brasil inteiro recebeu o disco anual de Roberto Carlos, cuja capa trazia uma das mais belas e pungentes imagens que uma capa de disco já recebeu. Aquela foto do seu rosto em close, mostrando um RC de longos cabelos encaracolados, olhos levemente deslocados para o lado à esquerda, e no rosto, a expressão de uma profunda tristeza, desde o olhar até os contornos dos lábios, tudo naquela foto traduzia tristeza, sentimento e sofrimento.

Quem comprou aquele disco naquela semana de Natal, por um momento, teve a impressão de estar levando um disco não de Roberto Carlos, mas de Jesus Cristo, para casa. Só faltava à foto, a coroa de espínhos ou mesmo, a cruz crucificadora.

E a tristeza continuava impregnando os sulcos do disco, através de belíssimas composições como "Por Amor", (...Mas se um dia, se um dia você voltar/Então eu terei chance de me levantar/Pois só você me pode estender a mão?Mas, se não for por amor/Me deixe aqui no chão..."), "À Distância" (Quantas vezes eu pensei voltar/E dizer que o meu amor nada mudou/Mas o meu silêncio foi maior/E na distância, morro todo dia sem você saber") e "O Divã", uma das mais lindas canções de todo o repertório de RC: "...Eu venho aqui, me deito e falo/Pra você que só me escuta/Não entende a minha luta/Afinal, do que me queixo?/São Problemas superados/Mas o meu passado vive em tudo que faço agora..." .
Autoria Rubens Stone 26/06/2008. Comunidade Orkut MC & JG no Tópico: Roberto Carlos Discografia Comentada.


Um disco que de tanto que eu gosto mandei fazer uma camiseta com a foto da capa estampada. Para garantir, um ano depois mandei fazer a segunda camiseta.

1 - À Janela (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Arranjo: Jimmy Wisner
Música em que o violão, bateria marcante, baixo espetacular entre outros instrumentos. Apenas acho a voz do Roberto meio apagada no disco inteiro, talvez seja pela prensagem do vinil que eu tenho, mas no cd também, a voz vem com uma certa carência de reverb (eco) usado a exaustão no disco de 79.  Existe uma marca conhecida do Roberto nessa música que é a alteração de tom. A letra fala de uma coisa que todo jovem ou adolescente já pensou, sair de casa. Mas pensando bem... melhor deixar as coisas do jeito que está. A letra da música leva á reflexão.

2 - Como vai Você? (Antonio Marcos e Mário Marcos).
Arranjo: Jimmy Wisner
O baixo usa uma técnica chamada Walking Bass, o naipe de cordas em perfeita sincronia, os violinos buscando as notas mais altas e voltando após o solo o Roberto cantar a letra. A volta do solo particularmente para mim é um dos maiores momentos da canção. Num show do Antonio Marcos no Bar inverno & Verão, Antonio Marcos canta essa canção e fala que escreveu nos tempos de São Miguel Paulista.

3 - Você é Linda (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Arranjo: Jimmy Wisner
O violão entra bem humilde numa variação de tônica e sétima aumentada. A música é como se fosse um elogio a todas as grávidas pelo que pode se perceber pelo estilo do refrão (não sei quem é você, nem de onde você vem) ... Aos poucos os violinos entram rasgando e criando um clima agradável na canção principalmente no verso (Seus desejos serão todos...). Ao final prestando mais atenção Roberto canta (... gordinha...). Roberto usaria isso muito nos anos 90 quando homenagearia as mulheres de óculos, baixinhas, gordinhas, de 40...

4 - Negra (Mauricio Duboc e Carlos Colla)
Arranjo: Jimmy Wisner
A bateria chama os outros instrumentos como a guitarra com um efeito que soa como um phaser, ou Chorus carregado e é uma melodia em que o baixo vai descendo na escala. A música tem uma porção de notas dissonantes naquela parte antes de entrar no refrão, não tão comuns nas canções do Roberto, geralmente são aqueles acordes que a gente passa a vida toda procurando no violão até um amigo mostrar com ar de (Ah é isso aqui ó.). No solo, o piano faz as notas do acompanhamento vocal e ainda brinda-nos com umas notas a mais.

5 - Acalanto (Dorival Caymi).
Arranjo: Jimmy Wisner
Essa minha mãe botava pra eu dormir e deixar meu pai dormir também para trabalhar no dia seguinte, rs. Seria legal se soubéssemos mais sobre os músicos de estúdio. Por exemplo, quem fez aquele vocal do começo, qual o nome da garota da voz angelical? Da primeira para a segunda estrofe, entra o baixo e bateria bem suave no chimbal.  Sem muitas peripécias instrumentais a música segue a mesma linha do começo. Forte presença dos violinos.

6 - Por Amor (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Arranjo: Chiquinho de Moraes.
O órgão é o instrumento que até o final do lado A, se apareceu foi bem discretamente. A canção do estilo corta-pulso traz bastante violão, baixo, violinos. E cá entre nós, a letra é fantástica.

7 - A Distância (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Arranjo: Jimmy Wisner
Há uma flauta logo no começo, os violinos no inicio alternando em tônica e sétima aumentada novamente e um leve reverb na bateria. O piano preenche a canção em seus espaços onde não há letra. Sempre após o refrão, a música dá uma parada bem breve e retorna nas estrofes. A letra é fantástica.

8 - A Montanha (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Arranjo: JimmyWisner.
Nesta canção é a vez do baixo. Ressalto sempre o baixo pois o mesmo é tocado pelo Paulo Cesar Barros, que gravou com Roberto até 1981. A música traz como se fosse um instrumento de cada vez. Várias alterações de tom são usadas. Há um coral cantando a frase (Obrigado Senhor). Uma boa dica é ouvir essa música pela manhã. Você já acorda rezando.

9 - Você Já Me Esqueceu (Fred Jorge).
Arranjo: Jimmy Wisner que usa uma de suas marcas registradas de sétima aumentada. Há um coral passeando pela canção. É uma típica música de meio de disco.

10 - Quando As Crianças saírem de Férias (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Arranjo: Horace Ott.
É gritante a diferença de arranjadores e a forma como pensam. A canção tem um clima diferente. A voz do Roberto parece estar em Overbubbing. A canção é mais preenchida de arranjos do que outras. Como em 90% das músicas do Roberto, cada instrumento entra na hora certa, os arranjos não são entregues de cara. Mas o piano é forte, baixo e bateria bem marcados e a letra fala que a rotina do dia a dia realmente impede o casal de dar uma de vez em quando. Com romantismo claro.

11 - O Divã (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
Arranjo: Jimmy Wisner.
 A canção tem um clima diferente. Um peso diferente. Uma letra que arrepia. Nem é preciso dizer do que trata a letra em determinada parte. Na parte instrumental, uma característica que chama a atenção é a do violão e o baixo em tempos quase quebrados, ou contra-tempo. Queria mais dicas de músicas do Roberto em que esse recurso foi aplicado. Belíssimo trabalho de Wisner.

12 - Agora Eu Sei (Edson Ribeiro e Helena dos Santos)
No meu disco pelo menos não consta o nome do arranjador. Violão bem tocado, baixo impecável, e arranjos minuciosamente elaborados, fecham o disco com chave de ouro. A letra pode ter mais de um sentido aí. Serve para aquelas pessoas que tem o rei na barriga, acham que “sabem de tudo, entendem de tudo”, mas tem gente que sabe mais. E também o sentido de “ Eu pensei que entendia de tudo, que sabia de tudo, mas não sei de você”. A pessoa amada é o TUDO.

Considerações Finais – O disco é 95% assinado por Jimmy Wisner. Um disco obrigatório para todo fã do rei. A equalização é meio sofrível, na voz do Roberto falta reverb, um disco meio comprimido, fechado, mas que nos recompensa com belíssimas músicas de alto nível. Na versão em cd que ouvi, não notei muita diferença. Mas não ouvi a caixa de 70 para ver se houve uma remasterização merecida. A voz do Roberto está impecável nesse disco que agora em 2012 completa 40 anos de existência.

4 comentários:

  1. RC72! A minha primeira cópia desse disco foi presente da vovó ainda na infância. Muito interessante a “leitura” da imagem da capa feita pelo Rubens Stone, alguém já comparou essa capa com aquela foto emblemática do Che Guevara também. É um Robertão triste (além do normal) que só se viu novamente numa capa no disco “Amor Sem Limites”.
    O disco em si tem uma sonoridade e letras bastante soturnas, músicas como “À Janela” têm um tipo de letra de Roberto e Erasmo que eu gosto muito, fugindo do tema “Amor” que os dois exploram tão bem, mas é interessante ver esse outro lado dos Carlos (comparando o nosso cantor predileto à nossa banda predileta, “À Janela” é o “She´s Leaving Home” dele). “O Divã” entra nessa seara também, uma das letras mais confessionais do Roberto assim como a comovente “Traumas” do disco anterior. “Como Vai Você” tem o Toque de Midas da interpretação de Roberto, não consigo gostar dessa música com outros cantores como gosto com ele. “Você é Linda” realmente antecipa essa série de homenagens às mulheres que ele fez nos anos 90, mas se tratava mais uma vez de uma canção de inspiração pessoal feita para a Nice que ele transformou em um tema universal, assim como “Mulher Pequena” e “Coisa Bonita” inspiradas por Maria Rita. E bem lembrado também esse padrão harmônico I, I7M, IIm7, V7 que Roberto e Erasmo exploraram bastante. “Negra” é uma das minhas prediletas no disco, curto muito os backings dela e como eu digo “Robertão soltando a voz de olhos fechados”. Não sei se você conhece a estória de “Acalanto”, mas me parece que na época o Roberto tentou compor uma canção para a sua filha Luciana, ainda bebê, assim como compôs “As Flores do Jardim da Nossa Casa” para o Segundinho e “Ana” em homenagem à Ana Paula, como a idéia não veio ele acabou gravando “Acalanto” para a Luciana que era a música que ele cantava para niná-la. Sua mãe acabou usando a gravação do Roberto contigo com a mesma finalidade que inclusive era a função da música do Caymmi, né? Hehe. “Por Amor”...dizer o que dessa letra? Uma das mais contundentes canções de coração partido já escritas, como você disse, simplesmente fantástica!

    Até aí teria sido só o lado A do vinil e Roberto já inicia o lado B com outro dos seus clássicos com Erasmo, “À Distância”, eu achava curioso os dois lados abrindo com duas músicas com “a” craseado, pensava que tinha algum sentido conceitual nisso...viagens...”A Montanha” trazia o Roberto buscando ainda esse lado espiritual que ele foi desenvolvendo com o tempo, mas ainda tinha certa liberdade de pensamento não limitado por nenhuma religião, o que ele voltou a ter do fim dos anos 90 para cá. “O Divã” eu já comentei lá em cima, arrepia até o fundo da alma, consigo me ver em várias passagens da letra, o tipo de música que mostra a grandeza de RC/EC. “Agora Eu Sei”, outra que eu adoro, um amigo quase conseguiu estragar essa música para mim, na cabeça dele se trata de um cara traído pela mulher porque “quem sabe menos das coisas sabe muito mais que eu” seria algo do tipo “o último a saber”, para mim se trata de algo bem mais filosófico como você disse. Sempre a associo a “É Preciso Saber Viver”.

    Quanto ao som que você comenta no fim, ainda não tinha aquela sonoridade de super produção gringa que surgiu nos discos do Roberto mais especificamente de 1975 para frente, mas já soava bem acima da produção nacional do mesmo período, acho que por muito por conta do cuidado e do ouvido do Rei. Completando 40 anos esse disco que me acompanha a mais de 20 anos, estamos ficando velhos, mano.

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  2. Eu tinha estranhado algo quando comentei antes (tava "pequeno" demais meu comentário, hauhauha), pulei "Quando As Crianças Saírem de Férias", essa é uma daquelas letras que não dava para entender exatamente o que queria dizer quando eu era criança, mas ao mesmo tempo me parece uma canção meio infantil como "Fim de Semana", acho que é resultado do clima do arranjo e da interpretação meio cômica do Roberto.

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  3. Eu sempre gostei dessa, o pianão forte no começo, uma linha de arranjo diferente do habitual do Roberto. Esse disco em vinil eu tenho umas três edições lá em casa. Um puta disco.

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  4. Apesar de ser típica música de meio de disco( ou Lp) Você já me esqueceu é demais. O Rei é demais!!!

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